Eis a verdade única: _Somos os peões da misteriosa partida de xadrez, jogada por Deus, que nos desloca, nos pára, nos põe mais adiante e depois nos recolhe um a um à caixa do Nada.
Omar Kháyyám, Pérsia
(1040 – 1125)
Omar Kháyyám, Pérsia
(1040 – 1125)
Por Fernando Machado
Sempre acreditei que todo ser humano, em determinado momento da vida, se faz uma cruel indagação: “Se eu morrer agora, o que terei deixado?”. Acho que, no fundo, é em função disso que as pessoas escrevem livros, constroem impérios, têm filhos, buscam sucesso profissional, decidem participar da vida pública ou se alistam no exército. Não sei se por ter passado há pouco da casa dos 30 ou, o que é mais importante, por ter me tornado pai, a questão se tornou mais latente, como um sino incessante badalando dentro da alma. E, embora permaneça ainda sem resposta para as charadas existenciais, a notícia da morte de um grande amigo me trouxe um alento e um exemplo prático e claro do valor do legado humano e, simultaneamente, do profundo significado da amizade.
No dia 31 de janeiro, Francisco José dos Santos, o meu amigo Xico Xadrez, faleceu em Uberaba, após sofrer uma parada cardíaca. Como o próprio codinome deixa explícito, Xico era, assim como eu, um adorador de Caissa, a deusa mitológica do xadrez. Xico (isso mesmo, com X de Xadrez) foi enterrado com todas as honrarias de um grande herói na sua cidade natal, onde morei por quatro anos e tive o privilégio de desfrutar da sua sincera amizade. A paixão desenfreada pelo estudo do jogo-ciência nos aproximou rapidamente. Ele, um mestre internacional de xadrez e um dos mais influentes enxadristas brasileiros dos últimos 20 anos. Eu, um aprendiz dos mistérios contidos nas 64 casas do tabuleiro. Em comum, tínhamos o mesmo amor pelo esporte da inteligência. Ele, um dos jornalistas mais íntegros e engajados do Triângulo Mineiro e escritor de intrigantes romances psicológicos. Eu, um simples estudante de jornalismo e repórter de diários locais.
Xico aprontava proezas inimagináveis com as peças, que simplesmente assombraram os adversários. Chegou a disputar a final do Campeonato Brasileiro, foi bi-campeão mineiro e, pasmem, permaneceu longos anos sem perder uma única partida em Uberaba. Foi lá que, no início da década de 1980, fundou a Liga Uberabense de Xadrez, entidade que reúne até hoje milhares de jogadores. É graças a ele que Uberaba é hoje uma das cidades brasileiras onde mais se pratica xadrez e forma grandes jogadores. Ele foi um dos principais responsáveis pela vinda ao Brasil de uma das maiores lendas do xadrez mundial, o russo Anatole Karpov, em 1994. Era amigo de Mequinho, o maior enxadrista brasileiro de todos os tempos. Disputou torneios internacionais na Europa e na Argentina, além de também ter movido as peças em Cuba e outros países. Em 2007, com a ajuda de amigos que fundavam o Clube de Xadrez de Rio Verde, consegui trazê-lo à cidade, onde ele realizou uma simultânea com dezenas de jogadores locais. Menos de um ano depois, ele venceria o Campeonato Aberto do Brasil.
O grande mérito de Xico Xadrez foi, mais do que se notabilizar como virtuose do jogo, ter contribuído enormemente para a popularização do esporte. Este é o seu legado para as futuras gerações, que certamente durará eternamente. Calcula-se que ao longo dos anos ele tenha ensinado e estimulado mais de 10 mil pessoas a praticar o jogo. Criou um método de ensino rápido baseado nas teorias de Paulo Freire e, em menos de 20 minutos, fazia qualquer pessoa poder afirmar que sabia jogar xadrez. Levava seus conhecimentos para cadeias públicas, menores infratores, idosos, pessoas portadoras de deficiências físicas ou mentais, estudantes do ensino básico ao superior e, na bela e arborizada Praça Carlos Gomes, recebia sempre com um sorriso todo aquele que quisesse aprender a arte ou, então, simplesmente jogar uma partida. Acreditava firmemente no poder reabilitador do xadrez e fez do jogo um criativo instrumento de ação social. Eu mesmo, em várias oportunidades, tive a oportunidade de acompanhá-lo e, em outros casos, de substituí-lo no ensino do xadrez para estudantes da rede pública de ensino e recebi a enorme gratificação de ser convidado para voltar. Muita gente achava estranho vê-lo entrar no hospício para ensinar xadrez. Os próprios médicos e enfermeiras, no entanto, eram testemunhas do bem que aquilo proporcionava aos pacientes. “O xadrez liberta”, pregava Xico.
Para ele, o xadrez era muito mais do que um jogo. Era arte, ciência, cultura, educação e cidadania. Como registrou o filósofo Montaigne, o xadrez é muita ciência para ser jogo e muito jogo para ser ciência.. Nas escolas, contextualizava o ensino do esporte e relacionava os ensinamentos com os fatos históricos. Conseguiu, inclusive, inserir o xadrez como parte da grade curricular de várias escolas. Explicava, por exemplo, que o xadrez fora trazido pelos portugueses ao Brasil ou que Machado de Assis fora o primeiro problemático do xadrez no Brasil e peça fundamental para a divulgação do esporte ou então contava com riqueza de detalhes as formas com que Napoleão Bonaparte aplicava o conhecimento do jogo na criação de inusitadas estratégias militares. Explicava paras as mulheres que o poder feminino, representado pela rainha, era o grande responsável pela manutenção dos impérios. Por trás das aparências, o rei é sempre uma peça frágil, que não sobrevive sem a devida proteção. No xadrez, o peão representa o poder de superação. É o soldado que se lança na linha de frente para proteger a nobreza e a única peça do tabuleiro que, ao atingir o último flanco do inimigo, conquista o poder. “Diante do tabuleiro, a mentira e a hipocrisia não sobrevivem por muito tempo. A combinação criadora desmascara a presunção da mentira; os impiedosos fatos que culminam no mate, contradizem o hipócrita”, declarou certa vez Emanuel Lasker, filósofo e campeão mundial de xadrez por 27 anos.
Para Shakespeare, conscientes ou não, somos todos atores sociais de uma ação teatral. Para Xico, peças de um enorme tabuleiro, com infinitas possibilidades de sucesso ou fracasso. Assim foi Xico. Nasceu e morreu pobre, foi vítima de poliomielite nos primeiros anos de vida e conquistou o respeito na sociedade uberabense graças à sua luta em defesa de uma causa humanitária. Um de seus livros chama-se Gilas Kalatian Partiu, e conta a história de um homem que deixa de repente a sua aldeia e se lança a conhecer a infinidade de outras tribos. Nessa aventura, amplia seus horizontes e percebe a sua pequenez diante do universo. Acredito que foi com esse mesmo espírito que meu amigo Xico Xadrez partiu.
(Publicado em março de 2010 na Tribuna do Sudoeste)
Nenhum comentário:
Postar um comentário